Sociedade e Cultura

Quando as feministas ousaram andar de bicicleta


A partir do momento em que as mulheres descobriram a bicicleta, descobriram todo um novo mundo de liberdade. E quando descobriram que podiam usar calções, a sociedade dos finais do século XXI teve um ataque de nervos. Mas lentamente as mulheres foram conquistando terrenos que lhes estavam vedados. Pode parecer estranho que a bicicleta possa ter desempenhado um papel central na emancipação feminina. O que é que uma máquina de duas rodas tem a ver com os direitos das mulheres?


“Deixem-me dizer-vos o que é que eu penso da bicicleta. Penso que fez mais pela emancipação da mulher do que qualquer outra coisa no mundo. Deu às mulheres um sentimento de liberdade e de autoconfiança. Sinto orgulho de cada vez que vejo uma mulher a andar de bicicleta... é a imagem da mulher livre e sem limites.” A afirmação é da norte-americana Susan B. Anthony, uma famosa sufragista que, nos finais do século XIX, teve um papel crucial na luta das mulheres pelo direito ao voto. E, de facto, assim foi: a emancipação das mulheres fez-se também em cima de duas rodas. Quando surgiu e passou a ser produzida em massa, a bicicleta tornou-se popular, quer pela sua utilidade enquanto meio de transporte da classe operária, quer pelo caráter de novidade, de “brinquedo” ao serviço das proezas desportivas de jovens de classes mais abastadas. Desde que se estivesse a falar de homens, claro está. Antes da invenção da bicicleta de segurança, não era de modo algum bem visto que uma mulher se atrevesse a montar numa bicicleta. Era considerado imoral, mas sobretudo perigoso para a “saúde frágil” das mulheres, ter preferência por atividades tão perigosas e desviantes como andar de bicicleta — diziam as mentes mais puritanas das décadas de 1880-90, sempre disponíveis para limitar as liberdades do sexo feminino. Por essa altura, era comum as mulheres usarem uma espécie de triciclo, um veículo mais ao gosto das sociedades conservadoras. Caso alguma senhora mais audaz se atrevesse a usar uma bicicleta, teria de o fazer na presença de um homem, que teria a responsabilidade de a proteger dos perigos e impedir que pedalasse sozinha por aí...

Rodas de mudança

Mas eis que os novos modelos de bicicleta, com quadros rebaixados para acomodar as longas saias das senhoras, vieram agitar as coisas... De repente, as máquinas que antes estavam apenas acessíveis a homens de temperamento aventureiro, passaram a ser mais ergonómicas, práticas e fáceis de utilizar. Estava em curso uma mudança extraordinária. As mulheres passaram a ter ao seu dispor uma nova forma de mobilidade, que lhes trouxe um renovado sentido de independência. Em breve, algumas mais destemidas encetariam as suas próprias viagens pelo país e pelo mundo em bicicleta, como a famosa Annie Londonderry. Também para as mulheres das classes operárias, a bicicleta representou uma espécie de passaporte para uma liberdade relativa, fora do espaço doméstico. Podiam agora aceitar trabalhos mais longe de casa, e deslocar-se para esses trabalhos de bicicleta. E sem necessidade de escolta masculina!

Escandalosamente em calções

Num artigo publicado em 1896 na revista norte-americana Munsey's Magazine, podia ler-se: «Para os homens no início a bicicleta era apenas um brinquedo, outra máquina a juntar-se à longa lista de aparelhos com que lidavam no trabalho e nos tempos livres. Para as mulheres, era como um corcel no qual cavalgavam na direção de um novo mundo». Um novo mundo, de facto, que levou as mulheres a largar as pesadas saias e os asfixiantes corpetes, adotando novas peças de vestuário que facilitavam o uso da bicicleta e tornavam o ato de pedalar mais confortável. Entre as inovações de vestuário mais importantes, contam-se os “bloomers”, uma espécie de calções largos em cima e justos no joelho, que logo se popularizaram por serem práticos e ao mesmo tempo discretos. Embora não tenham sido criados por ela, estes calções devem o seu nome a Amelia Bloomer, norte-americana ativista dos direitos das mulheres. Claro que os “bloomers” não estiveram isentos de polémica, pois eram vistos como vestuário vergonhoso, um atentado à moral e bons costumes — ou até mesmo à masculinidade, pois muitos achavam que as mulheres se estavam a apropriar dos trajes masculinos. Mas as mulheres estavam já a pedalar no seu próprio caminho, rumo à sua independência. Rapidamente a bicicleta potenciou a sua confiança para se tornarem membros ativos da sociedade, assumir negócios e manifestar opinião política. Através de algo tão simples como a mobilidade, a bicicleta acelerou a conquista de mais direitos sociais, como o direito ao voto. Como tão bem colocou Frances Willard, educadora e ativista pelo direito ao voto feminino, “comecei a sentir que eu mais a bicicleta era igual a eu mais o mundo.”

Questões a considerar antes de comprar uma bicicleta


Então, decidiste comprar a tua primeira bicicleta, ou simplesmente adquirir um modelo novo... Parabéns! Este é um momento emocionante, mas também pode ser uma fonte de ansiedade. Talvez tenhas medo de mostrar a tua inexperiência e falta de conhecimento ao entrar numa loja de bicicletas. Ou talvez tenhas já procurado informação, mas tenhas ficado muito confuso. Para teres um pouco mais de confiança na tomada de decisão, reunimos algumas questões mais importantes a ter em conta. Mas lembra-te: pedir conselho a um profissional é sempre uma boa opção.

Perguntas que deves fazer a ti mesmo

É sempre bom ter uma ideia do que se pretende antes de entrar numa loja, ainda que seja só uma ideia aproximada. Um vendedor de bicicletas experiente e conhecedor das necessidades dos clientes irá fazer as perguntas certas, que serão semelhantes às que abaixo indicamos. Assim, nada como começar já a refletir no tipo de bicicleta que mais se adequa ao teu perfil, para o processo de escolha ser mais fácil.

Eu sei que utilização quero dar à bicicleta?

Esta é provavelmente a questão mais relevante: perceber que uso irás realmente dar à bicicleta. Precisas de uma bicicleta para usar como meio de transporte, para lazer, para fazer exercício ou talvez mesmo uma combinação das três? Com que frequência irás pedalar? E que distâncias? Irás pedalar sobretudo em estradas e ruas pavimentadas, ou aventurar-te em caminhos de terra batida? Definir estes critérios permitir-te-á perceber que caraterísticas são mais importantes ao escolher um modelo de bicicleta, seja de estrada, todo-o-terreno, um modelo dobrável, de touring, uma bicicleta elétrica ou um modelo híbrido, adequado para diversos pisos e objetivos. Definir ao certo a utilização que lhe vais dar é a melhor forma de limitar as opções.

Que tipo de utilização é que espero fazer daqui a um ano?

Se planeias fazer grandes progressos numa determinada modalidade ou pedalar bastante e durante muitos quilómetros, é importante planear desde logo e adquirir uma bicicleta que te permita fazer isso. O ideal é escolheres uma bicicleta que possa crescer contigo — ou seja, continuar a servir os teus objetivos durante bastante tempo. Não precisarás certamente de nada muito vistoso ou cheio de acessórios para começar, mas deve ser um modelo que possas ir melhorando e atualizando conforme as tuas necessidades de novos componentes, rodas, etc.

Qual é o meu orçamento?

 Definir um orçamento para comprar uma bicicleta ajudar-te-á a manteres o foco e evitar compras por impulso de que, mais tarde, te poderá arrepender. Sê realista, mas tem também em mente que escolher a opção mais barata pode acabar por ter custos maiores a longo prazo. As bicicletas muito baratas tendem a ter maus componentes, podem ter sido montadas à pressa, e podem ainda não ter uma garantia em condições. Certifica-te de que vais adquirir uma bicicleta que vale realmente o preço que vais pagar, e que serve os teus propósitos em termos de desempenho e de conforto. Pode ser tentador ir para o mais barato, mas se tiveres de fazer reparações em pouco tempo, ou comprar novos componentes, lá se vai a poupança que achavas ter feito.

Perguntas que deves fazer na loja

No momento de comprar a bicicleta, há questões que não deves ter receio de fazer. Tanto quanto possível, dá preferência a lojas especializadas em bicicletas. Se tiverem serviço de assistência e de oficina, tanto melhor. Se sentes que um determinado vendedor não leva as tuas perguntas a sério, ou se achas que te quer impingir uma bicicleta de que não precisas, opta por ir a outro local.

Posso experimentar a bicicleta?

Se a loja não te deixar experimentar a bicicleta durante uns minutos, para perceberes se te sentes confortável em cima dela, se calhar não é a melhor loja para fazeres a tua compra. Não precisas de pedalar muito, basta que possas experimentar na rua em frente ou mesmo num espaço interior. Experimentar a bicicleta permite-te avaliar se é adequada em termos de altura, se te sentes confortável com os sistema de travagem, com o tamanho das rodas, etc.

A loja dá assistência?

É importante saber se a loja dá assistência no caso de precisares de algum ajuste. Especialmente se forres iniciante no ciclismo, pode demorar algum tempo até te habituares à bicicleta, mas é importante que converses com o mecânico da loja para saber se há algo que possas fazer para te sentires mais confortável. Às vezes basta um selim diferente, ou regular melhor a altura deste. Podes necessitar de uns pneus diferentes. É importante que a loja te possa proporcionar esse tipo de apoio.

A bicicleta tem garantia ou manutenção incluída?

Uma das razões porque é importante ter uma boa relação com a loja é o facto de, no futuro, poderes vir a ter de visitá-la mais vezes, seja para adquirir um novo modelo, seja para revisões periódicas. Terás a vida facilitada se a bicicleta tiver garantia e manutenção incluída, pois além de ti ninguém melhor conhece a tua bicicleta do que a pessoa que ta vendeu, não é verdade?

Organizações e entidades que promovem o ciclismo no feminino


Sendo um meio fantástico para criar confiança, fazer amizades e ganhar força, o ciclismo é uma atividade que nos faz sentir poderosos. Infelizmente, como em muitos outros ambientes desportivos, profissionais e sociais, as mulheres continuam sub-representadas no ciclismo. Embora, como sociedade, reconheçamos amplamente que todas as pessoas têm o mesmo direito de andar de bicicleta, é um facto que acabar com os costumes históricos e culturais leva o seu tempo.

Felizmente, pelo mundo existem muitas organizações que trabalham arduamente para ultrapassar essa sub-representação, tornando-se parte da solução. Quer procuremos apoio ou nos queiramos juntar a uma dessas organizações, com estas entidades podemos obter inspiração para, quem sabe, darmos início ao nosso próprio projeto. Ou, simplesmente, ficarmos mais sensibilizados para este tema e mais conscientes dos desafios do ciclismo no feminino. Eis algumas organizações que desenvolvem um excelente trabalho neste âmbito.

Fundação Amy D

Campeã nacional de sub-23 em estrada, montanha e ciclocross, Amy Dombroski tinha apenas 26 anos quando morreu tragicamente durante um treino na Bélgica. Sendo uma estrela em ascensão no ciclismo, apesar de a sua carreira ter sido interrompida, Amy tocou o coração de muita gente durante a sua vida curta, mas plena. Com o propósito de continuar a partilhar o seu amor pelo ciclismo, a Amy D Foundation foi criada em sua memória. Incentivando e apoiando a entrada de jovens mulheres ciclistas no ciclismo, a fundação promove a modalidade e ajuda as mulheres ciclistas a perseguir os seus sonhos, garantindo apoio a praticantes de BTT, ciclistas de estrada e ciclocross. Embora os eventos deste ano tenham sido adiados, a fundação continua muito ativa nas redes sociais, promovendo as ciclistas e publicando diversos conteúdos, desde dicas de treino a receitas de guloseimas para ciclistas. https://amydfoundation.org

Black Girls do Bike [As Miúdas Negras Pedalam]

Com o slogan "É como uma manifestação de miúdas negras em bicicletas", a BGDB dedica-se a formar e a apoiar mulheres que partilham uma paixão pelo ciclismo. Embora desenvolva esforços para apresentar a alegria do ciclismo a todas as mulheres, a organização alerta para a existência de um problema significativo de diversidade no mundo do ciclismo e, por isso, concentra os seus esforços na inclusão de mulheres e raparigas de cor. A BGDO criou um local confortável onde as mulheres ciclistas podem oferecer apoio, conselhos, organizar encontros/passeios e promover a partilha de competências. Seja como meio de transporte, para manter a forma ou para se sentirem mais confiantes, a organização está empenhada em atrair mais mulheres para o mundo das bicicletas. Nos últimos meses têm promovido conferências e eventos virtuais sobre temas como defesa de direitos, educação e segurança, algo que vão continuar a fazer até que possam voltar à rua juntas. https://www.blackgirlsdobike.com

Little Bellas

A Little Bellas é uma organização de BTT cujo objetivo é ajudar as jovens a alcançar o seu potencial através do ciclismo. As irmãs Lea e Sabra cresceram em Vermont, no Canadá, e, sendo apaixonadas pelo o ar livre, sabiam que queriam partilhar essa experiência com outras jovens. Esta paixão transformou-se numa organização que junta raparigas dos 7 a 16 anos com mentoras mais velhas. Os programas da Little Bellas usam o BTT como veículo para ensinar a importância do trabalho em equipa, de estabelecer metas e de promover um estilo de vida saudável. A organização realiza atividades no verão e acampamentos de vários dias, pensados para melhorar as competências e promover o espírito de equipa. Com ênfase nas novas amizade e na diversão, procuram fazer uma ligação positiva ao ciclismo e ajudar a cultivar a confiança nas meninas desde tenra idade. https://littlebellas.com

Get Women Cycling

Com a missão de elevar e apoiar as mulheres ciclistas através do envolvimento, da educação e da reestruturação de serviços, a GWC faculta aos seus membros os programas, formações e apoios necessários para que possam continuar a pedalar. Com sede em Nova Iorque, oferece consultoria, assistência mecânica, demonstrações de segurança e oficinas educacionais. Também organiza passeios de bicicleta guiados para dar às novas ciclistas a oportunidade de conhecer outras ciclistas e descobrir novos percursos. Focada na capacitação das ciclistas, a sua ação tem sido construída em torno de conversas geracionais, ativismo e mudança das políticas. Além de procurar ter mais mulheres a usar a bicicleta, a GWC tem vindo a trabalhar para tornar o trânsito mais seguro e eficiente para todos. http://www.getwomencycling.com

Cycling Without Age [Pedalar Sem Idade]

Embora a Cycling Without Age não seja uma organização exclusivamente para mulheres, merece uma menção especial pelo maravilhoso trabalho que realiza. Sendo uma iniciativa de base para dar aos idosos a oportunidade de andar de bicicleta, a organização acredita que todos têm “o direito a sentir o vento nos cabelos” e tem feito uma enorme diferença para muitas mulheres e homens em comunidades por todo o mundo. Com o propósito de ajudar os idosos com mobilidade limitada a voltar a andar de bicicleta, a CWA usa triciclos e uma rede de voluntários para fazer a ligação entre ciclistas e lares de idosos locais. Dispõe atualmente de mais de 33 mil ciclistas que ajudam a garantir que os idosos possam sair dos lares para dar uma volta de bicicleta, para aproveitarem o ar fresco e a comunidade em seu redor. https://cyclingwithoutage.org

Claro que estas são apenas algumas das muitas organizações por todo o mundo que promovem e apoiam a entrada de mais mulheres no ciclismo. Existem centenas de eventos, organizações, campanhas e clubes locais dedicados a dar às mulheres a oportunidade de usar a bicicleta, seja como meio de transporte, seja enquanto modalidade desportiva. Todas as pessoas devem ter a oportunidade de descobrir a alegria do ciclismo, e estamos sempre à procura de novas formas de isso acontecer.

Porque é que é importante reciclar bicicletas

Atualmente, numa altura em que as alterações climáticas estão na ordem do dia e as empresas estão mais sensíveis a esta realidade, muitos restaurantes e cafés adotam a postura de reduzir o desperdício. Fazem-no cozinhando com frutas e legumes que, por razões de mera cosmética, os fornecedores mandariam para o lixo — uma banana ou uma maçã com uma mancha, por exemplo. O mesmo acontece com as bicicletas. Porque é que uma bicicleta mais antiga tem de ir para o lixo, se pode ser utilizada por outras pessoas?

A ideia subjacente é a redução do desperdício, porque a verdade é que, a um nível global, estamos atolados até à cintura nos nossos próprios resíduos. Os oceanos estão repletos de lixo e as cidades estão cercadas de aterros e montanhas de resíduos que demoram muito tempo a tratar.

Por isso, faz todo o sentido que exista um movimento que apela à reutilização das bicicletas velhas ou avariadas — por outras palavras, um movimento de reciclagem de bicicletas — como é o caso do Recycle-A-Bicycle (RAB), com sede em Nova Iorque. Esta organização não só recupera bicicletas que, de outra forma, iriam parar à sucata, mas também emprega jovens colaboradores com jeito para a mecânica para dar uma nova vida a estas bicicletas, que podem depois usar ou vender. A RAB é uma organização sem fins lucrativos. Todas as bicicletas que recebem são fruto de doações, e o lucro que fazem com a venda posterior é usado para desenvolver programas educativos para a juventude que são geridos pela casa-mãe, a Bike New York. De acordo com o que a RAB diz no seu site, “em média, salvamos cerca de 1800 bicicletas por ano, o que representa mais de 20 mil quilos de resíduos que não vão parar às sucatas de Nova Iorque”. Ou seja, é muito potencial lixo que não chega a sê-lo.

O modelo da Re-Cycle do Reino Unido é semelhante, mas diferente. A organização aceita bicicletas usadas, e envia-as para entidades parceiras no continente africano, em quatro países, que depois as reparam, distribuem e mantém em bom estado de funcionamento. Também enviam peças e componentes gratuitamente, que depois são vendidos nesses países abaixo do valor de mercado. Isto gera uma série de consequências positivas — nomeadamente, o facto de passar a haver um meio de transporte barato e disponível para as comunidades locais, e ainda a utilização do lucro da venda das bicicletas para financiar empresas locais, promover o emprego e a aquisição de competências. E, claro, evita que haja bicicletas no lixo, completamente desperdiçadas. Como a Re-Cycle declara no seu site, “o que nos move é a sustentabilidade.”

Este é também o mote de Al Schroader, em tempos conhecido como “Bike Man”, o homem das bicicletas. Este aposentado que vive em Illinois, nos Estados Unidos, salvou mais de três mil bicicletas de irem para a sucata, reparou-as e deu-as a quem delas precisava. “Quando recebo uma bicicleta”, explica, “muitas vezes faltam peças, ou existem problemas, e tenho de avaliar se a bicicleta pode ou não ser recuperada. Cada bicicleta tem uma história.” Apesar de já terem sido feitas reportagem sobre ele em alguns canais de televisão, Schroader não se considera especial. “Gosto apenas de saber que há pessoas a serem ajudadas”, afirma.

Existem lojas e organizações de reparação e reciclagem de bicicletas por todo o mundo. É também o caso do Electric City Bike Rescue, em Schenectady, Nova Iorque, um programa de voluntariado que repara e redistribui bicicletas que, de outro modo, acabariam no lixo. O mais certo é que na nossa própria cidade ou vila existam projetos similares. Por isso, se lá por casa existe alguma velha bicicleta a apanhar pó, porque não dar algo à sociedade, em vez de simplesmente vender a bicicleta ou colocá-la no lixo? Seguramente que, depois de uma limpeza e das reparações necessárias, a velha bicicleta poderá fazer alguém feliz — alguém que poderá não ter os meios económicos para comprar uma. E, desta forma, além de contribuir para um mundo melhor, estamos a evitar criar mais lixo no planeta.

As nossas velhas bicicletas merecem ter um futuro.

Quem inventou a primeira bicicleta?

Quando pensamos na bicicleta enquanto objeto, estamos convencidos de que ela existe desde sempre. Afinal, se a roda foi inventada cerca de 3500 anos a.C., certamente que a bicicleta era um passo seguinte óbvio: afinal, bastava juntar duas rodas. Errado! A primeira bicicleta, ou o primeiro objeto que se pode tecnicamente considerar uma bicicleta, apenas surgiu no século XIX. Difícil de acreditar?

A verdade é que a primeira “bicicleta” de que há conhecimento data de há apenas 200 anos. Mais concretamente, 1817. Terá sido o barão Karl von Drais, um aristocrata alemão que, aos 32 anos, apareceu pela primeira vez montado numa estrutura de madeira com duas rodas e um banco. Foi nesta “laufmaschine” (máquina de corrida) caseira, que mais tarde seria apelidada de “draisiana”, de acordo com o nome do seu inventor, que Von Drais conseguiu fazer uma viagem de 14 quilómetros em menos de uma hora. O que era consideravelmente mais rápido do que andar a pé, claro, e menos trabalhoso que uma carruagem puxada por cavalos.

No entanto, há todo um percurso que levou até este momento. Ao longo da História, outros homens de génio criativo se aventuraram a imaginar veículos alternativos, para evitar a canseira que é... andar a pé. Antes do barão Von Drais, especula-se que, por exemplo, Leonardo da Vinci tenha construído por volta de 1490 uma maquineta semelhante a uma bicicleta, com duas rodas e sistema de direção. Contudo, essa teoria foi contestada em 1997 pelo conservador do Museu da Tecnologia e do Trabalho de Mannhein, na Alemanha, com base em estudos e exames feitos aos desenhos do mestre italiano.

Outro suposto percursor da bicicleta é atribuído ao francês Conde de Civrac que, em 1790, terá aparecido nos jardins do Palácio Real de Paris montado num barrote de madeira com duas rodas, um apoio para as mãos e uma cabeça de animal esculpida. A este engenho foi dado o nome de “celerífero”, e a locomoção era feita através de impulsos com os pés no chão.

Mas é ao barão von Drais que se atribui, de facto, a invenção da bicicleta. Porque foi ele quem, baseando-se no anterior “celerífero”, movido com os pés, montou a roda dianteira num eixo móvel, criando assim o mecanismo para a direção e guiador. Estas inovações permitiam fazer curvas e manter o o equilíbrio quando em movimento. Além disso, a draisiana foi equipada com um sistema de freios, ainda que rudimentares, e também um selim ajustável para que pudesse ser usada por pessoas de várias estaturas.

Claro que ainda estávamos a falar de um nível de conforto relativo, pois a draisiana era na mesma movimentada através da propulsão dos pés. No entanto, ao se ganhar velocidade, a máquina conseguia atingir a velocidade de 16 km/hora, além de permitir mudar de direção. A popularidade da draisiana aumentou e foram construídas e vendidas muitas cópias, que se espalharam pela Europa.

Depois disto, a inovação não mais parou, pela mão se outros engenhosos construtores, com a introdução dos pedais até à invenção do moderno velocípede, a chamada “bicicleta de segurança” — já com transmissão de corrente e roda dentada. Mas isso são outras histórias, que vos contaremos lá mais para a frente.

22 coisas irritantes que os ciclistas fazem em casa

A maior parte dos ciclistas profissionais concorda que treinar intensamente pode ser doloroso, mas a verdade é que não são os únicos a sofrer. Os seus entes queridos também se debatem com vários tipos de sofrimento, nomeadamente psicológico, por causa das coisas irritantes que os ciclistas convictos fazem em casa. Quem disse que era fácil viver com um ciclista?

Estão sempre a falar do número de quilómetros que pedalaram naquele dia.

E também estão sempre a recordar os outros do número de quilómetros que faltam para chegar aos 10.000 quilómetros pedalados num ano.

Lamentam-se constantemente dos percursos de bicicleta que poderiam ter feito.

Insistem com os familiares para que se juntem num passeio de bicicleta nessa tarde.

Gastam fortunas em novos componentes e acessórios.

Contam as calorias, não só daquilo que têm no prato, mas também nos pratos dos outros.

Fazem registos absurdos das conquistas físicas pessoais.

Verificam a pressão dos pneus da bicicleta antes de toda e qualquer percurso — às vezes até já o fazem nos carros.

Transportam o smartphone em sacos e bolsas de plástico para evitar que apanhe pingos de chuva.

Veem horas e horas de corridas de bicicleta na TV, seja em direto ou programas gravados.

Enchem o estendal de casa de peças de roupa suada de cada vez que chegam de uma volta de bicicleta.

Vão de bicicleta para o destino de férias, enquanto a família vai de carro para o mesmo sítio.

Estão sempre a sugerir aos outros membros da família que deviam seguir um plano alimentar mais saudável.

Penduram bicicletas na parede e dizem que é arte.

Deixam sempre a torneira do chuveiro no modo frio.

Estão sempre a falar das vantagens do casaco impermeável de ciclismo caríssimo que compraram e do qual toda a gente já ouviu falar inúmeras vezes.

Mandam mensagens aos amigos a dizer que os planos para as manhãs domingo implicam sempre andar de bicicleta.

Fazem cálculos do dinheiro que pouparam ao ir de bicicleta para o trabalho.

Têm sempre barritas de cereais energéticas e outros snacks nos bolsos dos casacos, que vão comendo em qualquer altura do dia.

Mesmo quando estão a relaxar e a ver TV, colocam-se em posições aerodinâmicas.

Enchem a garagem, ou alguma divisão que tenham livre em casa, com mais e mas bicicletas, como se a sua vida dependesse disso.


E se te pedissem para desenhar uma bicicleta de memória?

Parece uma tarefa fácil à primeira vista, mas desenhar algo a partir da memória, sem olharmos para algo concreto, pode não ser assim tão fácil. Um artista italiano pediu a algumas pessoas para desenharem a sua ideia de bicicleta, e depois transformou esses desenhos em imagens tridimensionais. A questão é: seria possível pedalar nestas bicicletas?

A conclusão a que se chega é que a maior parte das pessoas parece não ser capaz de desenhar uma bicicleta sem olhar diretamente para uma. Gianluca Gimini, um artista italiano, pediu a alguns amigos que desenhassem uma bicicleta numa folha, e depois transformou esses desenhos digitalmente em representações realistas dessas bicicletas. À primeira vista, parece tudo bem. Mas olhemos mais atentamente para o produto final, e veremos que falta algo: peças, partes essenciais ou, simplesmente, lógica.

«Descobri rapidamente que, quando confrontadas com esse pedido estranho, a maioria das pessoas tem dificuldade em se lembrar exatamente de como é uma bicicleta. Alguns aproximam-se bastante, outros fazem desenhos quase perfeitos, mas a maioria acaba por desenhar algo que é bastante diferente de uma bicicleta comum», diz Gianluca.

Viria a perceber mais tarde que esta experiência se parece bastante com testes feitos por psicólogos, demonstrando como o nosso cérebro por vezes nos “engana”, levando-os a achar que sabemos algo que não sabemos.

«Colecionei centenas de desenhos. Há uma diversidade incrível de perceções e de novos tipos de bicicleta que transparecem desses desenhos aparentemente “errados”. Na verdade, um designer não conseguiria inventar tantos novos tipos de bicicleta durante a sua vida, e é por isso que prezo e admiro tanto esta coleção.»

Eis alguns desses desenhos, com o trabalho posterior de recriação feito por Gianluca.

10 frases que nos inspiram a pedalar

Bem sabemos que a vida não é sempre como um belo passeio de bicicleta sem percalços. Por vezes, parece-se mais com um trilho acidentado e cheio de lama (ainda que para alguns essa possa ser a definição de diversão!). O que fazer para encontrar inspiração e aquele brilho no olhar de quem pedalou e voltou para contar? Eis alguns pensamentos sobre a persistência em cima de duas rodas.

Não há como negar o poder que uma frase ou pensamento perspicaz tem sobre as nossas emoções. Por vezes, numa única ideia, há quem consiga condensar inúmeros conceitos sobre o modo como olhamos para o mundo. Selecionámos algumas frases acerca da bicicleta e da superação de limites. Nada como ganharmos uma nova perspetiva, para nos motivarmos a ir mais longe, tanto de bicicleta como na vida.

«A vida é como andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio, é preciso estar em movimento.» Albert Einstein (1879 – 1955), físico que desenvolveu a teoria da relatividade

«Nunca fica mais fácil, apenas pedalamos mais depressa.» Greg LeMond, ex-ciclista profissional, campeão por três vezes da Volta a França

«Cair faz parte de andar de bicicleta, tal como chorar faz parte do amor.» Johan Museeuw, ex-ciclista profissional, duas vezes campeão mundial

«Os ciclistas veem muito mais deste mundo maravilhoso do que qualquer outra classe de cidadãos. Uma boa bicicleta, bem aplicada, curará a maioria dos males que assolam o corpo.» Dr. K. K. Doty

«Tal como os cães, as bicicletas são catalisadores sociais que atraem uma categoria superior de pessoas.» Chip Brown, escritor

«Para além da dor, existe todo um novo universo de ainda mais dor.» Jens Voigt, ex-ciclista profissional que detém o recorde da prova World Hour

«A dor é temporária. Pode durar um minuto, ou uma hora, ou um dia ou um ano, mas eventualmente desaparecerá e outra coisa tomará o seu lugar. Se eu desistir, no entanto, a dor dura para sempre.» Lance Armstrong, ex-ciclista profissional cuja carreira terminou devido ao doping

«Quando os ânimos estão em baixo, quando o dia se afigura negro, quando o trabalho se torna monótono, quando ter esperança dificilmente parece valer a pena, simplesmente monta na bicicleta e sai para dar uma volta pelas redondezas, sem pensar em mais nada a não ser a volta que estás a dar.» Sir Arthur Conan Doyle (1859 – 1930), autor de Sherlock Holmes

O vento nunca está contigo — ou está contra ti, ou estás apenas a ter um dia bom.» Daniel Behrman, (1924 – 1990), author de The Man Who Loved Bicycles

«Sempre lutei para alcançar a excelência. Uma coisa que o ciclismo me ensinou é que se conseguirmos algo sem nos esforçarmos, isso não nos irá satisfazer.» Greg LeMond, ex-ciclista profissional, campeão por três vezes da Volta à França

«Os ciclistas vivem com a dor. Se não a consegues aguentar, não irás alcançar nada.» Eddy Merckx, ex-ciclista profissional e campeão de ciclismo

«Quando andamos de bicicleta, respiramos, admiramos e escutamos a própria natureza, porque o movimento produzido contrai ao máximo os nossos nervos e dota-nos de uma sensibilidade que até então não conhecíamos.» Maurice Leblanc (1864 - 1941), romancista

As melhores leituras sobre bicicletas

Quando não estás a pedalar, que tal ler sobre... pedalar? Selecionámos alguns livros sobre este enorme prazer que é andar de bicicleta, desde reflexões, apontamentos históricos, e também perspetivas interessantes sobre mobilidade e sustentabilidade. Boas leituras!


O Livro da Bicicleta Um manual sobre tudo aquilo que alguém precisa de saber antes de se aventurar a usar a bicicleta como meio de transporte.

Diário da Bicicleta Escrito pelo cantor David Byrne, que leva a bicicleta nas suas digressões, trata-se de uma série de reflexões sobre mobilidade e urbanismo.

De Bicicleta — Antologia de Textos Reúne alguns dos mais interessantes textos literários sobre a bicicleta publicados nos últimos cem anos.

Lance Armstrong — O Ciclista Um olhar sobre a vida, a carreira e as litas pessoais de um dos mais célebres e polémicos ciclistas.

A Gloriosa Bicicleta Num registo entre o sério e o humorístico, é contada a história da bicicleta, das mudanças sociais que potenciou, e os desafios atuais dos ciclistas.

Grande Manual de Reparação e Manutenção de Bicicletas Um manual essencial para aprender a cuidar da bicicleta e fazer pequenas reparações.

Wheels of Change: How Women Rode the Bicycle to Freedom Um livro com muitas ilustrações que conta a história da bicicleta no feminino e como esta foi uma forma de emancipação e de libertação.

Just Ride: A Radically Practical Guide to Riding Your Bike O bê-a-bá da bicicleta e uma obra de referência, que abarca uma série de questões, desde as mais técnicas às espirituais: a bicicleta de corpo e mente.

Bikenomics — How Bicycling Can Save The Economy Uma perspetiva sobre a sustentabilidade, com histórias de pessoas, empresas e organizações que tem apostado em novas abordagens de mobilidade.

Bicycle Design — An Illustrated History Os dois séculos de História que a bicicleta já conta são abordados neste livro, que reflete sobre a questão do design e da inovação tecnológica.