Segurança

Visibilidade: os perigos que se escondem na escuridão

Que roupa devemos vestir para nos tornarmos visíveis aos outros utilizadores da estrada? E porque é que não é seguro estar a mexer no smartphone enquanto se conduz um automóvel? Neste artigo iremos abordar estas e outras questões sobre visibilidade na estrada.

De acordo com estudos levados a cabo pelo Departamento de Pesquisa de Segurança Rodoviária da ŠKODA, os acidentes entre automóveis e ciclistas que ocorrem à noite têm normalmente consequências mais graves, o que está diretamente relacionado com a pouca visibilidade. «Curiosamente, as colisões ocorrem principalmente em estradas retas fora das cidades. A causa é geralmente a alta velocidade praticada pelos condutores dos automóveis. Outro fator que contribui é a baixa luminosidade das luzes das bicicletas», afirma Jiří Polomis, da BESIP, uma associação checa que procura melhorar a segurança nas estradas. Então, quais são os comportamentos mais perigosos na estrada, e como os podemos evitar?

Porque é que os ciclistas pensam que estão visíveis, quando não estão?

Cada momento atrás do volante de um carro presenteia-nos com dezenas, ou até mesmo centenas de informações que devemos ter em conta, e que determinam o nosso estilo de condução. Lidamos com a maioria delas de forma subconsciente, e dirigimos a nossa atenção consciente para as situações potencialmente perigosas. Em resultado disso, é natural que os condutores dirijam o seu foco para os locais onde poderão aparecer outros carros, como curvas ou cruzamentos... Poder-se-ia assumir, então, que a maior parte das colisões entre carros e bicicletas acontece em interseções de maior complexidade, como os cruzamentos. No entanto, vários estudos têm demonstrado que cerca de metade dos acidentes na estrada tem lugar em retas.

Embora os ciclistas possam rapidamente argumentar que tal se deve à desatenção dos automobilistas, a verdade é que, em muitos dos casos, o condutor simplesmente não viu o ciclista. Situações deste género acontecem um pouco por todo o mundo. E a conclusão é simples: os ciclistas tendem a sobrestimar a sua própria visibilidade. Por outras palavras, quando pedalam, quer de dia, quer de noite, acreditam estar mais visíveis do que realmente estão. E isso acontece porque percecionam a realidade a partir do seu próprio ponto de vista. A sua perceção do contexto em redor é a de um observador que se movimenta de forma relativamente lenta, que consegue ver as luzes e ouvir o ruído de um carro que se aproxime à distância. Contudo, não se apercebem da forma como, aos olhos de um condutor, a sua presença se mistura com o ambiente em redor.

Que cores são mais eficazes?

Já em 2004, uma série de estudos demonstrava que as roupas de cores fluorescentes permitem aos ciclistas ficar mais visíveis, além de visíveis mais cedo e a uma maior distância aos olhos dos condutores. As cores fluorescentes refletem a radiação UV invisível num espetro que pode ser visto mais claramente pelo olho humano, até 200 por cento, do que as cores convencionais.

As cores mais adequadas são o laranja e amarelo, que são tons menos frequentes na natureza, — e, além disso, os condutores reagem-lhes normalmente com mais rapidez, uma vez que estão associadas a sinais de alerta. Os calções ou leggings fluorescentes estão entre as peças de roupa mais adequadas do ponto de vista da visibilidade (os estudos indicam que foram vistas pelos condutores 3,3 vezes mais cedo do que os casacos fluorescentes). No entanto, os ciclistas devem estar cientes de que as cores fluorescentes não funcionam tão bem à noite, pois as luzes dos carros não emitem raios UV. Idealmente, deverão usar roupa com elementos refletores, que permitam refletir a luz dos faróis e, assim, potenciar a visibilidade.

Quando o sol se põe

A roupa feita de material refletor é de grande utilidade quando se pedala à noite, uma vez que reflete a luz artificial. Por outro lado, o facto de serem materiais pouco respiráveis faz com que sejam menos confortáveis para serem usados como roupa convencional.

Daí que esse tipo de material seja usado principalmente em coletes. «À noite, o material refletor é visível a uma distância três vezes superior do que a roupa branca, e a uma distância dez vezes maior do que a roupa azul», diz Jiří Polomis, da associação BESIP. Perceber se um casaco amarelo brilhante pode realmente impedir a colisão entre uma bicicleta e um carro foi o objetivo da maior investigação que se conhece no âmbito deste tema, e que foi realizada na Suécia entre 2012 e 2013, envolvendo 6.793 ciclistas. A fim de angariar voluntários suficientes, os investigadores contaram com a ajuda dos meios de comunicação social e até organizaram um sorteio para dar uma motivação extra aos voluntários. Os participantes foram divididos em dois grupos, com um grupo a vestir roupas amarelas (do tamanho XS ao XXL) e o outro grupo a usar as suas próprias roupas. Quando os resultados foram comparados, um ano depois, constatou-se que o grupo de amarelo sofrera menos 47 por cento de acidentes em geral e menos 55 por cento de colisões com veículos motorizados em relação ao grupo com roupas normais.

Um outro estudo da mesma altura, levado a cabo pelo Dr. Rick Tyrrel da Universidade Clemson na Carolina do Sul, EUA, demonstrou que os ciclistas que usam coletores refletores têm 67 por cento mais probabilidades de serem vistos antecipadamente pelos condutores. As hipóteses aumentam para 94 por cento se, além dos coletes refletores, forem usadas outras peças como fitas ou braçadeiras refletoras para os braços e pernas. Está provado que os condutores de automóveis reagem mais rapidamente a objetos em movimento. Enquanto um colete permanece ao mesmo nível quando se pedala, podendo ser confundido com sinalização de estrada, os tornozelos dos ciclistas movimentam-se, subindo e descendo, o que os torna facilmente reconhecíveis, mesmo à distância. Outro fator que contribui para a visibilidade é o facto de os faróis dos carros estarem apontados para a zona abaixo da cintura do ciclista — ou seja, há toda a vantagem em usar braçadeiras refletoras nas pernas.

Usar luzes durante o dia? Porquê?

É mais do que sabido que as bicicletas devem estar munidas de luzes – branca à frente e vermelha atrás, de acordo com o Código da Estrada —, para serem usadas tanto de noite como em condições de fraca visibilidade (dias de chuva ou nevoeiro). No entanto, as pesquisas têm demonstrado que o facto de se usar luz durante o dia também aumenta grandemente a segurança. De acordo com um estudo feito na Dinamarca em 2012, o risco de colisão com um carro diminuiu 19 por cento no caso de ciclistas que usavam luzes durante o dia.

Pode, no entanto, ser desapontante perceber que a maior parte das luzes que são adequadas para a noite não funcionam tão bem durante o dia, pois não têm potência suficiente para se sobreporem à luz do dia. Uma luz dianteira adequada deve ter uma potência de pelo menos 100 lumens. Hoje em dia, existem inúmeras soluções no mercado com milhares de lumens, e quantos mais, melhor.

Naturalmente, quanto mais qualidade e mais potência, mais elevado é o preço. Enquanto que à noite é recomendável usar uma luz dianteira fixa, durante o dia é mais indicado usar a luz em modo intermitente, de forma a que o ciclista se distinga do ambiente em redor. E porque nem tudo tem a ver com a intensidade, é importante montar a luz num ângulo correto. Está provado que uma luz traseira colocada noutro local que não o espigão do selim, ou seja, fora do eixo central do ciclista, diminui significativamente as probabilidades de se ser visto de noite por um condutor que se aproxime.

O se que pode fazer para aumentar a visibilidade

• Ligue as luzes mesmo durante o dia — a luz traseira deve ter uma potência de 100 lumens, a luz dianteira pode ter mais potência. • Use o modo intermitente durante o dia, o modo fixo à noite. • Use roupa de cores claras ou fluorescentes com elementos refletores. • Use bandas refletoras à noite, especialmente nos tornozelos, uma vez que estes se mexem com o movimento de pedalar.

Um estudo feito na Suécia em 2016 analisou de que forma os automobilistas ultrapassam os ciclistas numa estrada reta, em espaço aberto. Descobriu-se que, em média, os condutores iniciam a ultrapassagem apenas 1,5 segundos antes de alcançar o ciclista. Se ambos estiverem conscientes da presença do outro, a ultrapassagem provavelmente decorre de forma segura e sem qualquer problema. No entanto, basta um momento de distração para que ocorra uma colisão. Basta que o ciclista esteja pouco visível ou que o condutor não esteja a prestar a devida atenção à estrada. O tempo de pegar no smartphone e o desbloquear é de cerca de 4 segundos. É o tempo suficiente para um carro que circule a 50 km/hora atravessar um campo de futebol. É por essa razão que os especialistas em segurança não poupam elogios aos modernos sistemas de assistência instalados nos carros novos, capazes de alertar o condutor relativamente ao risco de colisão com um obstáculo à sua frente, incluindo ciclistas.

Utopia, ou o futuro?

É claro que o mundo não é um sítio perfeito, mas, se fosse, um encontro na estrada decorreria assim: o ciclista sabe que conduzir um carro implica concentração, e por isso facilita a vida ao condutor usando roupas de cores claras e luzes adequadas. O condutor consegue ver o ciclista à distância, o que lhe permite reagir mais rapidamente, abrandar e fazer uma ultrapassagem em segurança, no momento certo e com a devida distância (um mínimo de 1,5 metros). Ambos respeitam a presença do outro, evitam-se de uma forma que promove a segurança e, se conseguirem comunicar, talvez até troquem um cumprimento. Talvez consigamos fazer com que este comportamento saudável venha a ser a norma no futuro.