OS SEGREDOS DE UM CO-PILOTO

Como é verdadeiramente o trabalho de um co-piloto? O Hugo Magalhães desvenda tudo.

Como é verdadeiramente o trabalho de um co-piloto? O Hugo Magalhães desvenda tudo.

10. 12. 2018

No Rali o papel do co-piloto é fundamental. Agora pode descobrir todos os seus segredos com uma entrevista a Hugo Magalhães.

Sabe o que pensa e quais são as responsabilidades principais de um co-piloto? Quais são os seus desafios durante uma corrida de rali? Ou os conhecimentos que tem de ter para garantir uma prova em segurança e que tenha um final vitorioso?

 

2018 foi o melhor ano de participação da ŠKODA na história do Campeonato WRC2. Em Portugal o primeiro Rali foi realizado em 1967 e a paixão pelo WRC2 também é notória. Este ano o Rali de Portugal animou a região do Norte, começando em Guimarães e terminando em Fafe.

 

A corrida começa e… o co-piloto não se limita a dar indicações. Cada corrida exige conhecimentos, concentração e capacidade de reação porque os desafios podem estar em cada quilómetro. Mas…

 

Como é verdadeiramente o trabalho de um co-piloto? Estivemos à conversa com o Hugo Magalhães, co-piloto da ŠKODA, para sabermos todos os pormenores e exigências desta profissão. Entre no FABIA R5 e fique a saber tudo.

Um sonho de infância que se tornou realidade. Podemos dizer que ser co-piloto foi uma paixão à primeira nota?

Desde os meus 7 anos de idade, quando assisti ao primeiro rali, que nasceu uma paixão pelo desporto motorizado mais concretamente pelos ralis e, em particular, pelo lugar de co-piloto. Posso considerar que foi paixão à primeira nota pois desde esse dia fui juntando um conjunto de “notas”, não retirei os olhos de tantas outras e lutei por muitas mais que acabaram por me levar por este caminho e hoje posso dizer que o meu trabalho é o meu sonho de infância.


Com que idade começou? Lembra-se da sua primeira corrida?

Comecei a fazer ralis tinha 23 anos e a minha primeira prova foi em Fafe, na minha Terra Natal. Lembro-me como se fosse hoje, a experiência foi tão marcante e vivida com tanta intensidade que as memórias ficaram bem vincadas e presentes. Os dias que antecederam a prova foram marcados pela euforia e ansiedade, tinha de fazer tudo direitinho, não podia falhar mas, ao mesmo tempo, queria desfrutar da oportunidade que estava a ter. Lembro-me como se fosse hoje que não consegui dormir na noite anterior ao início da prova e que estava sentado na minha cama com o meu caderno de notas e roadbook a ver tudo de fio a pavio. Quando a prova começou e de forma inesperada senti uma enorme tranquilidade que me fez viver aquele dia super feliz. Afinal de contas agora era eu dentro de um carro de rali, nas estradas onde tudo começou e na minha cidade.


Qual a sensação que tem sempre quando se senta antes de uma corrida?

Uma coisa que nunca mudou desde a primeira corrida foi a sensação de felicidade e gratidão por estar a fazer aquilo que gosto e, essencialmente, o respeito por todos aqueles que me estão a dar a oportunidade de fazer dos ralis o meu trabalho. No início a sensação de adrenalina e euforia também imperavam, hoje em dia ainda existem mas já não é da mesma forma, ou seja com menos intensidade. A experiência acumulada e com o passar dos anos aprendi a trabalhar estes fatores de modo a estar melhor preparado para ajudar os pilotos também na componente psicológica.


Qual ou quais as principais responsabilidades de um co-piloto?

Um co-piloto tem inúmeras responsabilidades que 90% das vezes passam ao lado do comum espetador. Um co-piloto tem de ter uma enorme capacidade de organização para poder preparar uma prova e gerir a mesma. O que vai desde:

• ajudar a equipa na logística;

• Saber interpretar os regulamentos do campeonato e da prova;

• Organizar e gerir os reconhecimentos (analisar mapas, ver os melhores/rápidos caminhos para voltar aos inícios e repetir a especial), assim poupamos tempo e quilómetros;

• Fazer as verificações documentais;

• Ter em mente o programa e o desenrolar de uma semana de rali;

• Ter algum conhecimento de mecânica;

• Saber ler um roadbook;

• Cumprir e fazer cumprir os horários à risca.

Obviamente um co-piloto tem de se sentir confortável a ditar notas e aqui está uma das nossas maiores responsabilidades porque nós somos cada vez mais responsáveis por um bom desempenho de um piloto em prova.

De que forma um co-piloto pode “afetar” uma corrida?

Vou abordar esta pergunta de uma forma mais pessoal porque já senti na pele como o meu desempenho pode ou não ditar um resultado final (já lá vamos).

Felizmente um co-piloto afeta uma corrida. Eu afirmo e reafirmo “afeta uma corrida” porque gosto de sentir essa responsabilidade, isto leva-me para fora da minha zona de conforto. Deste modo sou obrigado a trabalhar mais e de forma diferente, contudo adquiro mais conhecimentos e novos métodos de trabalho que são uma mais valia para ambos. Com o tempo percebi que me devia desmarcar do co-piloto tradicional, e porquê? Os pilotos precisam muito mais do que alguém a ditar notas e a acenar a cabeça concordando com tudo o que eles dizem. Na realidade as coisas não são assim tão lineares como parecem, ou seja, um piloto precisa sem dúvida alguma de alguém que desempenhe bem o papel de “ditar notas” no timming certo, com um timbre firme e sem hesitações. Mas eles precisam também que um co-piloto seja um “boost”, uma fonte de energia dentro do carro de ralis e durante toda a semana de prova.

Eu tenho de ter opiniões válidas, que realmente funcionem e não andar aos palpites, tenho de ser um elemento forte mentalmente transmitindo força, auto-confiança, calma e firmeza nas decisões. É preciso saber lidar e entender “pessoas” para poder inverter situações menos favoráveis e até mesmo para poder implementar outras coisas sem entrar em choque. Um erro meu pode ser fatal e deitar por terra toda uma prova e o trabalho de uma equipa (erro de percurso, erros de cálculo com uma carta de controle, engano nas notas), mas também um dia mais apático da minha parte, um dia em que eu apenas “cumpra” o meu trabalho sem dar algo mais pode ditar o resultado. Infelizmente sei o que é errar e ver todo o esforço dos outros não darem frutos bem como me sentir mais apático e não ter a capacidade para dar algo extra e talvez o necessário para não ficar a poucos segundos de uma vitória mas sim ganhar. Cada vez mais tenho a firme certeza que eu, através do meu trabalho, posso ser um dos principais responsáveis por uma vitória e também por uma derrota.

Como elabora uma nota da prova e o que precisa de saber?

A elaboração das notas é pessoal, ou seja, cada piloto tem a sua própria rede de códigos para definir a estrada, não é um método universal. Assim no dia de prova ele sabe interpretar e entender a informação que lhe dou colocando-a em prática. Para elaborar uma nota precisamos de entender e dominar a nossa própria linguagem. Elaboramos uma nota em função do ângulo que atribuímos a cada curva, acrescentamos o ritmo (andamento) a que lá vamos passar e quase sempre acrescentamos detalhes que são fundamentais para ultrapassar a curva da forma mais rápida e em segurança. Nunca devemos esquecer que a elaboração das notas (reconhecimentos) é uma das partes principais para sermos rápidos no dia de prova. Sem notas bem elaboraras os resultados não aparecem, é quase como tentar fazer uma omelete sem ovos!


Qual é o aspeto técnico mais importante a conhecer?

Como já referi anteriormente é preciso conhecer os regulamentos e saber aplicá-los mas também conhecer a máquina onde vamos sentados, saber mexer na mecânica para alterar afinações entre especiais e intervir em caso de avarias, que muitas vezes são reparáveis ou dão para o “desenrasque” e alcançar o parque de assistência e aí sim entregar o carro ao cuidado dos nossos mecânicos. Sabemos que tudo pode acontecer a cada quilómetro.

Como evitar o receio?

A melhor e única maneira de evitar o receio é não pensar nisso e tentar atingir um enorme pico de concentração antes de arrancar. Se isso acontecer não tenho tempo para pensar em mais nada nem de perder o foco no que estou a fazer.


Depois da velocidade… a calma. Qual o seu pensamento no final de cada corrida?

Quase sempre o pensamento no final de cada prova é o de fazer rapidamente uma auto-análise e auto-critica do trabalho que efetuámos mas essencialmente do meu trabalho. Mesmo quando as coisas correm bem sou crítico comigo mesmo e o final da prova é a melhor altura para escrever o que funcionou menos bem pois as coisas ainda estão bem presentes. Mas o melhor pensamento que posso ter e que sempre me acompanhada é o de dever cumprido fazendo o que sabia e consegui para o meu projeto e piloto.


O trabalho de um piloto e co-piloto é um trabalho 2 e 1. Sempre teve boas experiências neste trabalho de equipa?

Este trabalho tem obrigatoriamente que ser feito em equipa, não existe outra forma de ser. Só assim conseguimos ser só “uma peça” dentro do carro. Ao longo dos anos tive muitas e variadas experiências que posso considerar positivas, com todas elas aprendi e cresci mas essencialmente cada convite que tive foi prolongado significando que o trabalho e espírito de equipa funcionou.


Viajar pelo mundo tem sido uma das oportunidades ao ser co-piloto. Qual o país que mais gostou de conhecer e qual o que mais o desafiou numa corrida?

Sem margem para dúvida a Austrália, um país com uma imensa diversidade e paisagens belíssimas já para não falar das estradas em que competi, a única coisa que mudaria eram as horas de avião para lá chegar. Quanto ao país que mais me desafiou talvez vá juntar os do médio oriente, Qatar, Kuwait. São países em que os ralis não são tão convencionais, ou seja, as estradas não são tão bem definidas e dificulta imenso o dia de treinos e a própria navegação, a juntar a isso ler as indicações em árabe é um grande desafio.


Numa publicação no seu instagram elogia o ŠKODA FABIA por ser o “melhor carro R5 de sempre”. O que o diferencia?

É um carro bastante competitivo e fiável em qualquer tipo de superfície o que nos transmite uma enorme confiança e a certeza de que podemos atacar cada prova sem receios. Para além disso todo o carro está bem elaborado e construído sendo tudo prático e funcional. É fácil trabalhar com todos os instrumentos e a minha posição é super confortável e com excelente visão para o exterior.


Qual a sua ambição futura? Vê-se a participar noutro desporto?

Eu ainda não perdi a ambição de chegar a uma equipa oficial, sei que é difícil pelas mais variadas razões mas essencialmente por ser português, enquanto tiver forças vou alimentar essa esperança. Honestamente não me vejo a praticar outro desporto de forma profissional a não ser ralis e o Todo Terreno que já pratico também. Fui jogador profissional de futebol durante 6 anos e abdiquei para poder ingressar nos ralis portanto não me vejo a voltar para outra modalidade.


Se nos pudesse revelar o quanto o seu trabalho o enriquece através de uma imagem, que fotografia nos mostrava?

Foto com a criança... ser admirado e um exemplo para as gerações vindouras é bastante enriquecedor e uma enorme responsabilidade pois compete-me passar-lhes valores e continuar a ser um exemplo a seguir.

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